Colunas – Alexandre Loureiro (Alexl)

4 - Quinta

 

 

01/01/2015 – “Hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou…”

                                                          (Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle, Nelson Motta)

 
A 1ª coluna deste ano de 2015 que agora se inicia é uma lista simples de desejos para os dias que se seguem a partir de hoje e para todo o sempre (Nossa! Ficou pomposo isso, não?)
Desejo…
que sejamos mais tolerantes e menos arrogantes com os outros e que, na música, entendamos que não há o ruim, já que cada manifestação musical é a expressão de um sentimento pessoal. Podemos gostar ou não de qualquer estilo ou canção em particular, mas o mal feito diz respeito apenas àquilo que não atingiu todo o potencial desejado pelo artista.
que sejamos mais compreensivos com os outros, e que consigamos descobrir o que há de bom (porque sempre há…) em cada uma das pessoas que conhecemos e em cada arranjo que ouvimos

que sejamos mais criativos e curiosos para descobrir como o mundo funciona, como as pessoas pensam, o que podemos fazer em prol de um futuro melhor e que consigamos ouvir de novo aquela mesma canção, que amamos há tanto tempo, e descobrir na milionésima audição dela algum detalhe, alguma passagem que nunca tinhamos percebido antes, fazendo com que gostemos mais ainda dela.

que tenhamos mais oportunidades de realizar nossos sonhos e de conhecer novas Músicas

que tenhamos mais espaço e liberdade para expressar nossas idéias e gosto musical, sem que os outros percam o direito de não querer ouví-las.

que possamos respeitar nossas diferenças de opção política, ideológica, sexual e musical entre outras, e que aprendamos que a diversidade é benéfica.

Que tenhamos nesta ano e em todos os outros vindouros muitas alegrias (mesmo ouvindo Dolores Duran), muita paz (mesmo ouvindo Sepultura), muita energia e disposição (mesmo ouvindo Enya) para correr atrás de nossos sonhos (mesmo ouvindo Brian Eno).

São meus votos para nossas vidas a partir de 2015.
Um grande abraço a todos!
ALEXL
Contato Alexl: alexltriz@gmail.com
 

18/12/2014 – “Trilhas Sonoras Sob Medida…”

 

Neste últimos 25 anos (ou mais, já não me lembro…) desde que eu comecei a compor trilhas sonoras, já apanhei muito, já fiz muita coisa equivocada e aprendi um bocado com isso. De uma forma geral, os clientes sempre ficavam satisfeitos: quem tomava na cabeça era eu mesmo… 😉

Pensando nisso, resolvi passar a diante alguns truques que desenvolvi durante essa “longa e tortuosa estrada…”

Antes de qualquer coisa, certifique-se de que o cliente sabe exatamente o que quer com sua obra.

1º caso: Certa vez fui chamado para fazer a direção musical de uma coreografia que uma amiga e seu namorado haviam preparado para a formatura de ambos numa escola de dança.

A apresentação era dividida em três partes. A 1ª não tinha música. Para a 2ª eles haviam escolhido uma peça de John Cage, mas os tempos da música não batiam com a da coreografia e propus escrever algo novo com as mesmas características. Como a referência que eles tinham era precisa, consegui criar o material com relativa rapidez e facilidade e eles adoraram o resultado.

A 3ª parte da coreografia, no entanto, ainda não estava totalmente pronta. Eu só sabia que seria bem mais lenta e que os dois contracenariam com um boneco. Criei uma música usando apenas sons percussivos meio indefinidos (na verdade era um sample de pandeirola espalhado por todo o teclado), com andamento mais lento e uma estrutura meio minimalista. Eles disfarçaram, tentaram ser simpáticos e diplomaticamente disseram que não tinha nada a ver com o que eles imaginavam. “A gente não quer que as pessoas olhem a cena e pensem – olha o bonequinho…” – disse ela. “É uma coisa mais solene… como o teatro japonês de marionetes para adultos…”. Peguei essa deixa, escrevi um longo trecho sem pulso, bem solene e todo em escala pentatônica. Caiu como uma luva eles ficaram satisfeitissíssimos.

Poucos meses depois, eles apresentaram a mesma coreografia num concurso, mas queria fazer algumas alterações. No dia que nos reunimos para conversar sobre essas mudanças, por acaso ouviram a versão antiga da tal 3ª parte que eles não tinham gostado antes e desta vez acharam que tinha tudo a ver com a (nova) idéia que tinham para essa parte…

2º caso: desta vez quem levou prejuízo foi a pessoa contratada para fazer um filme institucional. Mas como ela me chamou para fazer a trilha, acho que cabe bem como exemplo.

Era um vídeo institucional sobre a Embrapa. Fica aqui o aviso: nessas empresas grandes, eles escolhem uma pessoa para ser o contato com você, mas ela pouco ou nada decide. Qualquer decisão final passa por um monte de cabeças, às vezes uma que discorda da outra só de sacanagem, às vezes uma que não participou da criação do briefing mas quer um outro resultado etc.

O que o autor do vídeo (o contratado) me passou, era que haveria muitas cenas rurais das fazendas de gado e de plantações e pouco texto narrado. Criei um dedilhado bem movido no violão de 12 cordas emulando uma viola caipira e depois um baião sinfônico com uma orquestra de cordas tocando um tema contrastante, cheio de notas longas para ser usado nas partes de voz e não atrapalhar a compreensão do texto. Fiz uma mix meio chulé só pro cara do vídeo ter uma idéia do material temático e, mais tarde, poder dizer onde entraria cada tema.

Quando ele levou a 1ª montagem do vídeo, ainda sem a trilha, pro contato ver, a pessoa (ir)responsável disse que tinha gostado do material. Mas quando o vídeo foi mostrado aos manda-chuvas, eles disseram que queriam uma cena mais bucólica de natureza no início. Meu amigo voltou pra mesa de edição, acrescentou as tais imagens (que por sorte ele já tinha gravado…) e eu mandei uma introdução com umas notas esparsas no 12 cordas, uns passarinhos no fundo aquela coisa…

Novamente o vídeo impressionou o “pombo-correio” da empresa, mas os cabeçudos acharam que tinha muita vaca e plantação e que isso devia ser cortado. Meu amigo ainda pensou em argumentar que era isto o que estava escrito no briefing do contrato, mas preferiu não se aborrecer mais, desistiu do trabalhou e pulou fora. Ficou com meu rascunho de trilha gravado para usar numa outra oportunidade. Afinal, já tinha pago por ela mesmo…

Procure acompanhar a criação do projeto desde o começo

Isso vai lhe ajudar a ter uma idéia mais completa e abrangente sobre a obra para a qual você está criando sua trilha. Troque idéias com os autores/diretores, explique o que você está pensando em fazer, mostre alguns rascunhos durante o processo etc. Isso vai ajudar a você entender o que o autor está querendo (claro, no caso dele também saber…).

Especificidades de cada mídia

Para dança:

– se a coreografia já estiver pronta ou bem adiantada (e não for uma coisa livre e despreocupada do pulso), anote o andamento, os tempos fortes e as entradas de movimentos que possam ser usados como marca para sua trilha. Faça com que estes tempos e entradas estejam bem claros na sua trilha para que os bailarinos não precisem se preocupar em identificá-los e fiquem livres para focar na dança.

– quando tiver os primeiros rascunhos, mostre para o responsável e para os bailarinos e peça-os para executarem a coreografia ao som de sua demo. Isso vai lhe ajudar a se certificar de a música pode ser dançada e diminuirá os riscos dos bailarinos perderem o sincronismo com a música.

– procure montar uma estrutura para toda a coreografia e deixe os detalhes do arranjo para o final.

– procure assistir ao maior número de ensaios possível (costumam ser muitos…) e a atualizar sua trilha sempre que possível refletindo as eventuais observações anotadas durante os ensaios.

– estime o tempo gasto nos ensaios na hora de compor seu orçamento

Para teatro:

– procure criar trilhas bem flexíveis para que possam ser esticadas e encolhidas de modo a se adaptarem à duração real dos trechos onde vão entrar. No teatro, os andamentos são bem mais subjetivos. Já me pediram 30 seg de música para uma cena que, durante os ensaios, durava metade do tempo. Aí o diretor me disse “é só cortar um pedacinho da música…”, mas eu teria de cortá-la no meio de uma frase, ou dobrar o andamento, ou esticar as notas. Acabei criando um trecho novo. Minha dica para esse quesito é criar uma música a partir da montagem de vários blocos (loops) pequenos. Provavelmente soará meio minimalista, mas isso lhe dará mais flexibilidade: para ajustar o tempo do trecho você poderá acrescentar ou retirar um bloco, acelerar ou diminuir o andamento ou uma combinação destes recursos.

– assista também a vários ensaios (geralmente são ainda mais numerosos que os de dança…) e cronometre o tempo das passagens onde haverá música. Depois de alguns dias, este tempo tenderá a variar menos e será mais fácil fazer com que a troupe e a música se adaptem um ao outro.

lembre-se de estimar o tempo gasto nos ensaios na hora de compor seu orçamento

Cinema:

– o certo é montar a trilha final em cima do que costumamos chamar de “copião”, ou seja a 1ª montagem do filme inteiro, do início ao fim. Melhor (aliás, beeeem melhor…) se você conseguir uma cópia com a indicação dos quadros (frames) ou pelo menos a minutagem aparecendo na tela. Será imensamente mais fácil cronometrar e sincronizar as entradas de sua trilha. Mas, se vocês leram algumas de minhas colunas anteriores, saberão que nem sempre isso nos é dado. Já tive de escrever trilhas em cima de story boards ou só com o roteiro dado. Meu conselho, neste caso é: só aceite fazer isso para amigos e ainda duvidem dessa amizade (ouviu, Clementino?).

– procurem seguir uma regra geral que diz que, sob diálogo, evite movimento excessivo e sons percussivos: isso pode atrapalhar a compreensão do texto. Essa regra pode ser quebrada de vez em quando, mas tome muito cuidado com isso, porque se não, sua trilha pode ser mixada mutio baixa para não atrapalhar e, bem, você a criou para ser ouvida, não é?

Bem, acho que por hoje é só. Se me lembrar de outras dicas dessas eu abro parênteses em outra coluna e acrescento mais informação.

Até mais!

ALEXL

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27/11/2014 – “Pedras e Sonhos (El Efecto)”

 Capa - Frente

 

Em meu pequeno iPod Classic de 160 Gb eu carrego 25.821 músicas, divididas entre 2.155 álbuns. Isso é coisa pra ouvir durante mais de 81 dias direto sem parar!

Já ouvi muita coisa nessa vida de meu Deus… provavelmente por isso, dificilmente me interesso por qualquer coisa que possa ser facilmente rotulada: pop-rock, MPB, música erudita… Até mesmo “progressivo” ou “experimental”, que são rótulos tão vastos quanto a biodiversidade da Amazônia, já não me despertam muito interesse. Porém, se algum trabalho musical for difícil de ser explicado, eu já começo a levantar as sobrancelhas. Sabendo disso, meu estagiário Cláudio Pereira, me apresentou outro dia um clipe do El Efecto fazendo a seguinte introdução: “Acho que você vai gostar disso…”.

A música em questão era O Encontro de Lampião com Eike Batista e eu realmente ouvi cada um dos 8 minutos e tanto da canção com um sorriso indisfarçável no rosto, arrebatado pelo arranjo impecável, a execução agulhadíssima da banda e de seus convidados, os surpreendentes contrastes de dinâmica de suas várias seções e a excelente letra que remete, em seus versos e estrutura, ao estilo da literatura de cordel.

Obviamente entrei no site da banda e fiz o download integral do álbum (faixas e encartes). Gostei tanto do trabalho que o escolhi para resenhar aqui.

Depois desta, acima citada, a 2a faixa, Pedras e Sonhos, que dá nome ao álbum, traz um forte acento latino entrecortado por uma pegada bastante pesada nas guitarras de Pablo Barroso e Bruno Danton e nos vocais dos dois e de Tomás Rosati. O acento latino surge mais claro ainda numa salsa lenta com cara de Buena Vista Social Club lá pelo meio da música, embalada pelo trompete de Matheus Corrêa e o trombone de Jonas Correa (aliás, Jonas, um abraço direto do MIS pra você!). Em seguida, o clima latin Hardcore volta para encerrar a música.

Em Adeus, Adeus, a introdução meio samba-jazz dá lugar a um arranjo vocal e letra que emulam os grupos vocais de música gospel americana, só que em português. No meio da canção, um discurso inflamado de conteúdo religioso nos deixa na dúvida da real intenção da letra. Até que ela se converte num discurso de cisão, de rompimento, de questionamento. Apesar disso, e do peso das guitarras aqui e ali, o som gospel do início se mantém mais ou menos o mesmo.

Cantiga de Ninar, a faixa 4, começa num arranjo vocal super suave, mas se intercala nos refrões com uma espécie de Arrigo Barnabé-Hardcore 😉 cromático e pesado. A música termina com um duo de clarinetes, suave porém estranho, quase atonal, deslizando sua melodia sinuosa numa valsinha de acordes dissonantes de guitarra; daria uma boa trilha de fundo para um filme de Tim Burton… 😉

Em Prelúdio em HD, o texto, o arranjo vocal e o sotaque da voz principal, parodiam os grupos vocais típicos da África do Sul como o Ladysmith Black Mambazo, revelados ao ocidente pelo álbum Graceland do americano Paul Simon.

De fato a faixa serve de prelúdio para a seguinte, N’aghadê, de levada característica da música pop africana, com seus micro-riffs e arpejos de guitarra e levada cadenciada e bem suingada (me trouxe à memória FIlhos de Gandi de Paulo César Pinheiro e Toda Menina Baiana de Gilberto Gil…). Claro que de vez em quando aquelas guitarras “a la Linkin’Park’ entram rasgando o arranjo, além de outros detalhes que enriquecem a música.

Em A Caça que se Apaixonou pelo Caçador, a levada de rock pesado troca de posição no arranjo e faz a introdução para dar lugar a um leve “skazinho”. E ficam conversando um com o outro, num indo e vindo de trash metal-ska-valsinha. Alguma coisa nessas alternâncias de estilo e dinâmica, me remeteu aos Mamonas Assassinas, mas, claro, sem a irreverência da banda paulista.

A Consagração da Primavera faz o grande contraste com o resto do álbum: lírica, sem pulso nítido, sem guitarras pesadas, acompanhada por um bonito arranjo de madeiras, metais e cordas. A letra também, em oposição ao estilo mais direto dos versos das outras canções, é bastante subjetiva, poética e abstrata, e termina a canção sendo declamada.

Os Assaltimbancos é a mais fragmentada de todas as faixas, a mais difícil de se assimilar. Parece um número de um musical e, de fato, faz em sua letra diversas citações ao texto que Chico Buarque fez para a versão em português do musical Os Saltimbancos, estreado em terras brasileiras no longínquo 1978.

De um modo geral, as letras são excepcionalmente bem escritas, apesar da poesia simples e direta, claramente revolucionárias (politicamente falando) e alinhadas com o discurso inflamado das passeatas que viriam a tomar o país de norte a sul quase dois anos depois do lançamento do álbum. O som também é bastante enérgico de um modo geral. Os arranjos vocais são sempre muito bons. Me chamaram a atenção em particular as partes mais pesadas, onde as vozes, quase que gritando, ainda mantinham a perfeita harmonia e afinação. As guitarras da Pablo e Bruno funcionam quase como irmãs siamesas tal a perfeição da dobradinha que fazem nos arranjos que permeiam o álbum. A cozinha do baixo de Eduardo Baker com o metralhadora que dispara das baquetas de Gustavo Loureiro (será que ele é meu parente?) completam a argamassa que fundamenta as partes mais pesadas das canções. Isso sem contar com a versatilidade de Tomás Rosati e Bruno que também tocam clarinete e trompete respectivamente, e o luxo dos músicos convidados que participaram do projeto.

Enfim, uma grata surpresa!

Todas as músicas da Banda estão disponíveis em www.elefecto.com.br !

 

ALEXL

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13/11/2014 – “Native Instruments – Scarbee Rickenbacker Bass”

 

Apesar de não ser perfeito e de haver, hoje em dia, vários concorrentes bastante competitivos, o sampler Kontakt da Native Instruments ainda é o líder no mercado dos samplers/sample players. Além da incrível versatilidade do software, de uma forma geral, a biblioteca de sons que vem com ele é absurdamente variada e ainda pode ser ampliada com inúmeros instrumentos e bibliotecas extras produzidas pela própria empresa e por terceiros. Hoje, vou analisar minha mais recente aquisição, produzida pela própria Native Instruments em parceria com o baixista e compositor Thomas Hansen Skarbye: o Scarbee Rickenbacker Bass.

A vasta seleção de técnicas de execução inteligentemente programadas, permite um realismo realmente impressionante ao instrumento, sem que, com isso, sua execução demande um pós-doutorado em controladores MIDI. A maioria destas técnicas é selecionada pelo próprio software autmomaticamente durante uma execução.

Dentre as técnicas programadas/sampleadas estão:

 – cordas tocadas com palheta:

Foram gravados 20 samples de palhetada para baixo e 12 para cima para garantir a naturalidade da execução e evitar o famoso efeito “metralhadora”. A direção das palhetadas é escolhida automaticamente, mas você pode selecioná-las também.

 – cordas soltas e digitadas:

As notas foram sampleadas soltas (quando existentes no instrumento*) e digitadas em todas as cordas possíveis. Scripts incluídos na programação do Scarbee Rickenbacker Bass, escolhem em que corda as notas serão tocadas baseados no que foi tocado antes. Obviamente você também pode forçar essa seleção manualmente através de determinadas teclas (keyswitches) escolhendo a corda ou a casa que você quer tomar como base.

 *a extensão original do instrumento, foi ampliada até o B (Si), uma 4ª abaixo da nota mais grave do original.

 – notas sustentadas ou abafadas com a palma da mão (com diferentes níveis de pressão/abafamento)

 – harmônicos

 – ligaduras ascendentes (hammer-ons) e descendentes (pull-offs)

 – notas ornamentais

 – glissandi

 – trilos (com ligaduras ou glissandi) de tom e semitom

 – cross-hammering (fazer a nota soar apenas com o golpe dos dedos, sem a palhetada)

 – acordes

 – glissandi de acordes

 – Releases (sons da mão esquerda soltando ass cordas)

– 1.000 amostras (samples) diferentes de ruídos dos dedos nas cordas, para tornar a execução ainda mais natural

O instrumento foi plugado diretamente no mixer através de uma direct box. Os responsáveis preferiram deixar as opções de amplificadores e caixas para serem acrescentadas virtualmente dentro do próprio software.

Na interface inicial do programa, aparece uma (linda) foto de um Rickenbacker 4003 num estúdio, com amplificador, caixas de som, um gravador de rolo, um compressor e um equalizador ao fundo (os dois últimos num rack de madeira abaixo do gravador).

ImageProxy.mvc

Na parte inferior do painel, aparece o braço do instrumento indicando onde as notas estão sendo virtualmente digitadas.

Com um clique sobre os ítens deste set virtual, a imagem do braço dá lugar a painés para os ajustes dos equipamentos respectivamente selecionados.

image

Com um clique sobre o baixo, por exemplo, aparece o painel de seleção dos captadores do braço (neck) e ponte (bridge) com seus respectivos controles de volume e tonalidade (um filtro de agudos/passa-baixa). Nas duas chaves de seleção, você escolhe entre um ou outro captador ou ambos, e ainda pode acionar a chave “Rick-O-Sound” que, como no isntrumento original, manda as saídas dos dois captadores para canais diferentes de uma saída estéreo.

Clicando sobre a caixa de som, aparecem 7 opções de monitoração, algumas combinando 2 tipos de caixas e outras combinando caixas com microfones.

Os painéis de ajustes do amplificador, gravador, equalizador e compressor aparecem respectivamente nas 4 imagens abaixo:

ImageProxy1.mvc

Os presets criados pela empresa e os que forem eventualmente criados pelos usuários, incluem toda a configuração dos captadores, amplificação, monitoração, ajustes no gravador*, equalizador e compressor.

*repare que o gravador aqui é usado para acrescentar uma coloração característica ao som do instrumento e não para gravar qualquer coisa realmente.

Diante de tantos detalhes e opções oferecidas pelo fabricante, é realmente impressionante como o instrumento consegue escolher automaticamente as melhores opções de samples para cada situação e ainda ser fácil de se tocar.

Para mim, o Scarbee Rickenbacker Bass ainda é uma aquisição muito recente e ainda estou descobrindo as nuances de cada controle e de cada preset. Mas já dá pra saber que, enquanto não tenho condições de dispensar quase R$8.000,00 para adquirir Rickenbacker 4003 original em terras tupiniquins, os U$99.00 de investimento neste VI (virtual instrument) serão muito bem gastos…

para mais informações e audio-demos impressionantes, acesse…

http://www.native-instruments.com/en/products/komplete/guitar/scarbee-rickenbacker-bass/

Contato Alexl: alexltriz@gmail.com

 

30/10/2014 – “Música para crianças”!

 

 

ATENÇÃO!!! – Esta coluna de hoje traz opiniões polêmicas e estritamente pessoais. No entanto os responsáveis pelo texto gostariam de declarar que nenhum músico foi torturado durante a produção deste texto.

A nossa ligação com o som e com toda a complexidade de relações que podem ser desenvolvidas com ele é tamanha, que isso nos permite criar música para quase todas as atividades humanas (certamente algumas ainda não foram tentadas…): tem música para trabalhar, protestar, se exercitar, dançar, acompanhar imagens, relaxar e tem também o que vou chamar genericamente aqui de música-de-criança.

Música-de-criança é aquele tipo de música com tema e letra infantil, geralmente com finalidade pedagógica (desenvolvimento psicomotor, ensinando as letras ou a contar etc…), que a gente ouve e até gosta quando criança, mas que depois não faz sentido nenhum até termos filhos ou sobrinhos pequenos para mostrar-lhes.

O que talvez as pessoas não percebem (pelo menos eu não tinha percebido até ter filhos…) é que, assim como fazemos uso de músicas diferentes para atividades diferentes, as crianças têm capacidade mental para apreciar outros tipos de música que não apenas música-de-criança. Isso porque, a apreciação da música passa por diversos processos cognitivos que não só o intelectual.

Há alguns (muitos) anos atrás, fiquei impressionado com um garoto de uns 7 ou 8 anos, filho de um instrutor de violão, que estava ouvindo Beatles no seu aparelho de mp3. Mas hoje vejo que, quanto mais cedo temos acesso a música (e à dança, às artes plásticas etc), mais abertos à diversidade cultural e menos restritos por preconceitos nos tormamos.

Na lista de favoritas de meu filho mais velho (6 anos) tem de Anita à Black Sabbath, de música indiana à Tribalistas, de Michael Jackson à Bartok. Eu procuro mostrar-lhe as coisas que gosto e não reprimi-lo por também ouvir outras que eu não ache tão “admiráveis”, mas tenho de confessar que tive de usar de minha posição hierárquica em casa para impedir que o “Lepo Lepo” entrasse no playlist de sua festa de aniversário…

O menorzinho (2 anos) parava tudo para ouvir aberturas de programa na TV e comerciais com algum jingle mais elaborado. Comecei a usar de sua precoce sensibilidade musical a meu favor: na hora de dormir tascava um CD de harpa celta para abaixar-lhe a energia e fazer o bichinho dormir.

Patrick Ball

Algum tempo depois, cansado de ouvir o mesmo CD todas as vezes, resolvi testar um do Uakti.

Uakti 2

Achei que tinha funcionado porque ele estava deitado atrás de mim e em silêncio por mais de 40 min. Só quando acabou o disco é que percebi que ele tinha ficado deitado, o tempo todo de olhos abertos, ouvindo a música!

Do outro lado da história, há álbuns que conheço desde a mais tenra idade (adoro essa expressão!), alguns deles oficialmente orientados ao público infantil, e que gosto e ouço até hoje! A meu ver, apesar de seu público alvo serem as crianças, esses discos não eram repletos de música-de-criança.

Os dois principais exemplos desta categoria são: um do Trio Irakitan, grupo vocal brasileiro que iniciou suas atividades na década de 50, ficou famoso por suas gravações de boleros, e em 1969 lançou um disco inusitado cheio de pérolas do cancioneiro infantil: “Canções para crianças de 6 a 60!”.

Trio Irakitan

Quando ganhei este disco, ainda não tinha 6 anos e até hoje ainda adoro este trabalho e me impressiono com os arranjos vocais, os scat singings, o instrumental, além de ser super alto astral…

Outro destes é a trilha original do Sítio do Pica-Pau Amarelo (a primeiríssima temporada!).

Sítio do Pica-Pau Amarelo.jpg

A trilha tem Gilberto Gil, MPB4, João Bosco, Dorival Caymmi e Jards Macalé como intérpretes, entre outros. Os arranjos são fantásticos e as letras… bem, as letras fogem um pouco do “1, 2, 3 indiozinhos…”. Uma de minhas preferidas, “Arraial dos Tucanos”, tinha em seu texto versos como;

Até quando um homem que da terra vive / e que da vida arranca o pão diário / vai ter tua paz / paz, aparente e pálida / paz, aparentemente paz..

e também…
Pelos seus caminhos / pelos seus quintais / veredas de espinhos / pelos seus umbrais

É claro que, com 10 anos de idade, eu não fazia a menor idéia do que eram veredas ou umbrais, mas isso não me impediu de gostar da música.

Acho o trabalho de artistas como o Palavra Cantada, a Bia Bedran etc, muito importantes, porém cada vez mais acho que, salvo um conteúdo mais agressivo aqui ou de conotação sexual ali, os pequenos têm toda a capacidade de experienciar e decidir se gostam ou não, de qualquer tipo de música.

Me lembro de um caso que um professor de história da música me contou. Quando ele fazia seu mestrado nos EUA, dividia o apartamento com outros dois músicos. Um dia, um destes apareceu lá com o filho pequeno. Esse professor estava estudando piano e a criança pediu-lhe que tocasse alguma coisa para ele. O sujeito que não estava com paciência e queria continuar estudando, improvisou uma coisa bem bizarra e totalmente atonal no piano, enquanto cantava, numa melodia igualmente estranha, a história de um coelhinho. O garoto pareceu assustado e saiu do quarto deixando o músico em paz. Dias depois, numa nova visita, o menino pediu que ele tocasse de novo a música do coelhinho. O cara, desta vez com mais tempo e paciência, resolveu inventar uma cantigazinha mais afeita a este tipo de historinha. O menino insistiu: “Essa não, eu quero aquela que você tocou da outra vez!”. E agora: como ele tocaria de novo aquela coisa bizarra totalmente improvisada? No fim das contas, o menino voltou justamente para encarar de novo aquela coisa estranha que lhe tinha parecido tão assustadora no início, mas que lhe tinha cativado a curiosidade de alguma forma…

Até que a coluna não foi tão polêmica, né? Então, pra resolver isso, vou confessar: sabe aquele DVD da Galinha Pintadinha que todo pai de filhos pequenos ama por conta de seus efeitos, digamos, tranquilizantes em casa? Eu adoro a música da barata… 😉

ALEXL

Contato Alexl: alexltriz@gmail.com

 
 

16/10/2014 – “Captadores”!

 

O timbre e a qualidade do som da guitarra e do baixo elétrico, entre outros instrumentos eletrificados, depende fortemente de 4 grupos de fatores;

Fatores mecânicos:

– diâmetro da corda (diretamente associado à densidade da mesma): cordas mais densas = maior volume de som e timbre mais “encorpado” (com reforço nos médios e um pouco menos “brilhante”).

– densidade e firmeza da estrutura braço/corpo: corpo mais rígido e braço mais firme ou inteiriço = mas sustentação do som

Fatores de captação:

– capacidade de magnetização das cordas (diretamente associada ao material usado nas mesmas)

– tipo de captador (veremos isso com mais detalhes a seguir)

– blindagem do circuito, incluindo a do cabo

Fatores de processamento:

– qualidade e tipo de processadores (pedais de efeitos, por exemplo) utilizados

– qualidade e tipo de amplificador usado

Fatores acústicos:

– qualidade e tamanho dos auto-falantes usados

– estrutura da caixa de som (design, tamanho e materiais usados)

– acústica do ambiente

Com tantos fatores influenciando o som do instrumento, a escolha do timbre desejado acaba sendo uma questão de gosto. Mas, para quem está começamdo essa viagem, seguem algumas dicas de como funcionam e soam alguns tipos clássicos de captadores.

Single Coil:  

single    

O single coil (bobina simples) é o mais básico deste tipo de captador eletromagnético.

Trata-se de um núcleo magnético envolto por uma bobina. Este núcleo pode se apresentar de diversas formas: como pequenos ímãs cilíndricos, uma barra imantada, parafusos imantados (na verdade ficam em contato com um ímã na base do captador) etc.

O som destes captadores é descrito como “aberto”, “brilhante” e “limpo”, mas este último adjetivo nem sempre lhe cabe bem, já que este modelo costuma ser bem ruidoso. Acontece, que as bobinas do captador (assim como o cabo da guitarra…), funcionam como uma antena que capta um bom bocado de interferências eletromagnéticas provenientes da rede elétrica, ondas de rádio, televisão etc e mandam tudo isso para seus pedais e amplificador.

Mas isso, na verdade, serve mais como aviso, porque, apesar disso, o modelo de guitarra mais clássico do mundo (a Stratocaster) usa 3 destes captadores, e este instrumento e suas infinitas cópias arrebanham milhares de fãs pelo mundo a fora (inclusive eu…). Quanto de “rame” você já ouviu nas centenas de músicas que você conhece gravadas com Srtatocasters e outros instrumentos com este tipo de captador? Ou seja: este captador é mais ruidoso do que outros modelos, mas, com um circuito elétrico bem blindado, um cabo de (muito) boa qualidade e a ajuda de um noise gate decente, dá pra tocá-la com um distorcedor nas alturas e ainda assim ser (bastante) feliz…

Humbucker:

  humbucker

O humbucker é um captador de bobina dupla que foi desenvolvido para reduzir o ruído captado em suas bobinas.

Ele funciona mais ou menos assim: dois núcleos magnéticos, cada qual com sua bobina estão montados numa base com suas polaridades invertidas, Quando as cordas vibram, induzem em cada bobina sinais eletromagnéticos de valores opostos, por exemplo 1 Volt numa bobina e – 1 Volt na segunda. os finais das bobinas são conectados também com a polaridade invertida. Deste modo, os sinais gerados pela vibração das cordas são “desinvertidos” e somados gerando um resultado aproximadamente duas vezes maior do que o de cada bobina individualmente. Já o ruído captado por uma das bobinas, quando é invertido e somado ao captado pela outra, acaba sendo cancelado.

Isso, obviamente é a teoria. Na prática, o ruído geral é bastante reduzido, mas algumas freqüências mais agudas acabam sendo atenuadas por conta de uma maior impedância* do captador com o dobro de bobinas e também da área de captação das cordas (maior do que a do single coil que fica posicionado num úncio ponto abaixo das cordas).

O resultado disso é que o som dos humbuckers, costuma ser um pouco menos “brilhante”, porém mais “encorpado”, com predominância dos médios e graves e também mais alto (com mais volume) do que seus irmãos de uma bobina só.

Lipstick:

lipstic

O lipstick (batom) é um tipo especial de single coil. A bobina é enrolada diretamente num ímã em barra e o conjunto colocado dentro de um tubo de metal cromado, originalmente sobras de tubos de batom!

O som do lipstick é um pouco menos aberto e estridente que o single coil tradicional e, talvez por isso, os médios aparecem um pouco mais.

Para finalizar, separei alguns links de vídeos onde são comparados o single coil com o humbucker.

Single coil x humbuckers:
https://www.youtube.com/watch?v=gemDGZ63Vcs
https://www.youtube.com/watch?v=yudXHR6agaM&list=RDgemDGZ63Vcs&index=2

Também separei outro vídeo onde aparece uma demosntração da sonoridade de uma guitarra com captadores do tipo lipstick:
https://www.youtube.com/watch?v=w2wSxycu1c4

Até a próxima!

Contato Alexl: alexltriz@gmail.com

 

02/10/2014 – “Shankar Family & Friends ou “O caminho das Índias…”

Shankar Family & Friends

Este álbum foi meu primeiro contato real com Ravi Shankar e com a música indiana de uma forma geral. Copiei-o com algumas poucas edições, de um vinil da tia de meu amigo Rodrigo Portugal, para um lado de uma fita K7 de 90 min (no outro lado estava “Natural Rhythms” do grupo Ancient Future que um dia ainda hei de resenhar…). Alguns anos mais tarde, quis fazer uma transcrição do mesmo para um CD mas o vinil tinha se perdido. Tentei pegar emprestada a cópia de uma outra amiga (Chandra Mani), mas ela também não sabia o paradeiro de seu disco.

Passei anos procurando por este álbum até que consegui comprá-lo com um amigo, Sergio Lima Nascimento, dono da loja de discos La Macchina del Tempo,. O vinil parecia novinho e com o encarte completo (em português!). Mas, à primeira audição, percebi que os sulcos do disco estavam muito gastos e as últimas faixas de cada lado tinham um nível de ruído insuportável. Transcrevi o álbum de qualquer jeito, mas não tinha nenhum prazer em ouví-lo…

Foi meu colega, Rafael Valle, quem o descobriu no SoulSeek. Mesmo assim, as versões das quais consegui o download tinham muito ruído ou estavam muito abafadas.

Finalmente, em 2010, foi lançado um box com este álbum, mais dois outros de Ravi Shankar em parceria com George Harrison e um DVD. Obviamente não perdi tempo e o adquiri!

Trata-se de um trabalho pouco convencional em se tratando de música indiana. O disco abre com I am missing you, uma canção devocional (bhajan) à Krishna, com letra em Inglês e arranjo bastante pop feito por George Harrison. O vocal de Lakshmi Shankar, cunhada do artista principal, mistura um Inglês muito bem pronunciado com as nuances e melismas microtonais da tradição de canto indiano, fazendo com que, logo de cara, percebamos uma dose grande de exotismo naquela canção de estrutura e arranjo tão familiares ao ocidente.

Na seqüência, o bhajan, Kahān Gayelavā Shyām Saloné, apesar de bastante ritmado e de ser estruturado em forma de estrofes e refrão (o que lhe confere uma certa familiaridade ocidental), traz em seu arranjo apenas instrumentos indianos. Deste modo, damos mais um passo em direção ao exótico e nos soltamos gradativamente da zona de conforto do universo pop.

Em Supané Mé Āyé Preetam Sainyā, mais um bhajan, os melismas, desta vez intensamente microtonais, dos vocais de Lakshmi, das flautas de bambu (bansuris) de Hariprasad Chaurasia, do sarangi de Ronald Cohen e do violino de L. Subramaniam, quase nos tiram do chão. Para ouvidos ocidentais, parece que a afinação dos instrumentistas oscila como num disco com a rotação inconstante, e apenas o pulso moderado e quase displicente da tabla segura a pontinha dos dedos dos pés no mundo do conhecido.

Talvez com a intenção de nos trazer para a realidade de novo, a 4a faixa é um novo arranjo da mesma I am missing you que abriu o álbum.

Para fechar a 1a parte (originalmente o primeiro lado do vinil) vem Jaya Jagadish Haré, uma canção com uma sonoridade e estrutura bem folk., que quase nos remete aos repentistas do nordeste brasileiro ou as versões de Peixinhos do Mar e Marinheiro Só gravadas respectivamente por Milton Nascimento e Caetano Veloso.

A 2a parte trata-se de um peça que Shankar compôs para um ballet imaginário (e que nunca foi dançado…) dividido em várias seções. A justaposição e superposição de instrumentos indianos e da tradição européia, traz um equilíbrio entre exotismo e familiaridade típico de trilhas sonoras mais atuais como a de As Aventuras de Pi (Life of Pi) de Mychael Danna ou O Último Imperador (The Last Emperor) de Ryuichi Sakamoto, só que menos grandiloqüente que essas.

Overture e Festivity & Joy são bem leves e ligeiras. Dá até pra intuir uma coreografia simples e tradicional de um ballet típico do ocidente.

Em Love – Dance Ecstasy os solos simultâneos e nervosos do sitar de Shankar e do sarod de Ashish Khan começam a delinear uma atmosfera de tensão crescente. Apesar do duplo solo ser bastante incomum na tradição clássica indiana, esta faixa é a que mais se aproxima da sonoridade desta tradição.

Em Lust uma levada bem simples de bateria, serve de base para uma melodia bem leve conduzida pela marimba e depois pelo baixo e guitarra. Alguns efeitos de arpejos rápidos e cheios de ecos nas flautas preenchem esta peça que funciona mais como uma transição para o próximo clima. É a faixa menos interessante do álbum em minha opinião. Talvez tenha sido colocada de propósito nesta posição para criar um contraste com…

… Dispute & Violence, de longe a faixa mais interessante do ballet e talvez do álbum inteiro. Após uma disputa de solfejos rítmicos que serve de introdução à peça, entra um tema super jazzístico e suingado, intercalado por um solo irado de sax alto com um “quê” de James Bond.

Corta para Disillusionment & Frustration com uma base bem toanalzinha, levada pela marimba e o santoor, sobrepostas por improvisos de flauta, violino e Moog que vão ficando gradativamente mais estranhos e sobrepostos.

Despair & Sorrow, quando começa, remete às trilhas que Enio Morricone fez para os bang-bangs espagueti de Sergio Leone. Depois, vai se “indianizando” aos poucos até emendar com a próxima faixa.

Awakening serve mais como uma ilustração sonora ao roteiro imaginado por Shankar para o ballet. Começa com passarinhos, depois entra um canto gregoriano, seguido por um outro típicamente indiano, depois um muezin cantando do alto de um minarete, e termina com um mantra hindu.

Peace & Hope, começa bem sonolenta com a basuri de Chaurasia, seguida por um coro devocional. Então surge um pizzicato no violino que vai acelerendo pouco a pouco até desembocar num tema bem acelerado e indiano até a ponta das unhas. O álbum acaba com a última faixa sumindo em fade…

De uma forma geral, os arranjos mesclam uma diversidade incrível de instrumentos indianos e ocidentais, tanto acústicos como elétricos e eletrônicos, às vezes soando como pop, jazz, rock, ou a trilha de George Martin para o filme “Yellow Submarine”. Mas entenda-se: pop, jazz, rock ou trilha sonora indianos. Para ilustrar esta mistura, a capa mostra os músicos ocidentas segurando instrumentos indianos correspondentes a seus equivalentes europeus (sempre que possível) e vice- versa.

Shankar trouxe para o projeto alguns que mais tarde se tornariam grandes mestres e referências em seus instrumentos como Hariprasad Chaurasia (bansuri), Shivkumar Sharma (santoor), L. Subramaniam (violino indiano) e Alla Rakha (tabla e pakhavaj). Harrison, por sua vez, contou com nomes bastante familiares àqueles que conhecem mais profundamente o universo dos Beatles: Klaus Voormann no baixo elétrico, RIngo Starr na bateria e Billy Preston no órgão, por exemplo, além do próprio produtor tocando guitarra disfarçado sob o pseudônimo de Hari Georgeson 😉

Eu sei que muitos nomes de instrumentistas e de instrumentos soarão alienígenas para a maioria dos leitores. Mas deixo assim, propositalmente, como um gancho para que fiquem instigados a conhecer um pouco mais dessa cultura.

Sobre isso, cabe dizer que esse, definitivamente não é um bom exemplo de música clássica indiana. Mas é um disco maravilhoso, exótico e surpreendente que, como aconteceu comigo, pode lhe abrir as portas do conhecimento para o universo musical da terra dos marajás. Recomendo-o fortemente…

Contato Alexl: alexltriz@gmail.com

 

18/09/2014 – “Taiko 2 – Uma pérola rara e completamente escondida…”

 

Prólogo:

Por conta de algum traço masoquista de minha personalidade, minha lista de projetos malucos e pouco viáveis não para de crescer. O último deles, ou melhor, o mais recente (antes fosse mesmo o último…) começou com a idéia* de um álbum todo acústico usando apenas (???) os instrumentos que tenho em casa, em particular alguns que consegui trazer ou encomendar de outras culturas: um oud egípcio, um saz da Turquia, o sarod, o sitar e mais alguns que trouxe da Índia etc.

A idéia* de lançar um CD todo acústico e tocado por mim, sem banda pra dividir os gastos ou patrocínio para bancá-los, já seria suficientemente insana. Mas se ficasse nisso não seria eu. Então resolvi acrescentar uma orquestra de câmara e um grupo de tambores japoneses (taiko) no projeto para tornar a tarefa ainda mais impossívelˆ.

Para criar os arranjos para o tal grupo de Taiko (da Associação Nikkei do Rio de Janeiro), resolvi investir na compra de um VI (instrumento virtual) específico. Depois de uma rápida busca no Google, cheguei a 2 concorrentes de recursos bem próximos, mas acabei fechando com o Taiko 2 da Nine Volt Audio por um motivo simples: ele custava 35% do preço do concorrente!!!

O Taiko 2:
Trata-se de uma sample library para ser usada com o a versão completa do Kontakt 4.2.3 ou outra mais recente. Ele não possui a versão independente (stand alone) nem funciona só com o Kontakt Player.

Para criar os presets do Taiko 2, foram gravados:

Set 1:

1 - shime daiko    Shime daikos (grave, médio, agudo e em ensemble) – fig. 1

2 - okedo daiko   Okedo daiko (grave, médio e em ensemble) – fig. 2

3 - nagado daikoNagado daiko (grave, médio, agudo, ensemble grave e média)-fig.3

4 - Chu daiko   Chu daiko – fig. 4

5 - odaiko   Odaiko – fig. 5

6 - Fan drum  Fan drum (grave, médio e agudo) – supostamente isso aí na fig. 6…. golpes de baqueta (solo e em ensemble)

batidas no aro dos tambores (solo e em ensemble)

Essas gravações foram feitas com 2 posicionamentos de microfone: próximo ao instrumento e captando a ïmagem sonora” do palco (portanto, mais afastado do instrumento).

Set 2:

ensemble de tambores mistos tocando na pele, no aro e fazendo golpes de baquetas
Esses samples foram criados mixando várias das gravações em solo e em ensemble do set 1.

Esses sets foram divididos em 10 dinâmicas diferentes (do pianíssimo ao fortíssimo) cada dinâmica com 10 alternativas de sample, somando 100 gravações de cada instrumento/ensemble (também conhecido pelo termo “10×10 Round Robin“).

Set 3 (bônus):

Gongos grave e agudo, prato crash, trash (?) e tocado com arco, objetos de metal (bigorna, roda de carro, corrente, cano e placa),
“Chamadas”de voz (Ha!, Ho!, Ya! etc…) em versões solo e em ensemble.

Esse set contém várias amostras por “instrumento” (geralmente 5 para cada) organizados nos patches e disparados apenas pela intensidade do toque (velocity), mas não foram organizados usando a técnica de Round Robin.

A “instalação” é simples: basta carregar os instrumentos no Kontakt buscando-os em seu computador ou diretamente do browser do Kontakt e dando um clque duplo sobre o mesmo.

Essa biblioteca contém 20 arquivos .nki (patches para o Kontakt):
Os 4 primeiros contêm kits completos com: 3 ensembles de tambores graves e 3 de agudos, 4 ensembles de toques em aro e 4 de golpes de baquetas, 6 tambores solo, 2 baquetas solo, 2 toques de aro solo, pratos, metais e “chamadas” vocais.
Os outros 16 patches apresentam conjuntos de articulação/percussão organizados por microfonação “próxima” (“close”) ou “de palco” (“stage”).

O Taiko 2 traz também 20 arquivos .mid que servem como demo dos patches, e que devem ser carregados e tocados através de um sequenciador.

7 - Taiko 2 -painel principal  fig. 7

A interface do instrumento (fig. 7) possui vários controles. A maioria é de compreensão e uso facilmente dedutíveis. É o caso do reverb (com 16 presets e controles de dry e wet), um equalizador de 3 bandas (com ajuste das frequências de corte alta e baixa), controles de ganho, saturação e amplitude estéreo (width).

O controle de attack também é de fácil dedução, mas vale acrescentar que ele altera a “percussividade” do ataque de modo diferente para cada instrumento, o que ajuda a criar sensações de ataque diferenciadas para os instrumentos solo e as ensembles.

O controle de EQ DNA foi criado para adicionar curvas de equalização extras e permitir uma flexibilização maior do que o Kontakt normalmente oferece. A seleção de um DNA diferente pode alterar não só o timbre geral do preset, mas às vezes até a percepção do local onde os tambores foram gravados.

O botão “Mix Page” abre uma janela com faders individuais para cada tecla para a qual tenha sido endereçado algum som. Obviamente o no de faders varia conforme o preset tenha mais ou menos sons.

Por último, o Taiko 2 vem com 10 presets de fábrica e permite a criação de mais outros 5 pelo usuário.

O pulo do gato…

Embora o termo taiko se refira diretamente à cultura japonesa, a compra dessa biblioteca se mostrou um verdadeiro “negócio da China”!

Acontece que a empresa responsável pelo produto (http://www.ninevoltaudio.com), resolveu fechar as portas depois de 10 anos de atividade. Por conta disso, fez uma liqüidação geral e estava vendendo todos os 38 produtos juntos, com valor de U$3.000.00 por apenas U$199.99!!! Outra opção era a venda dos produtos individualmente com 60 a 70% de desconto (foi essa que preferi).

Se você prestar atenção nas imagens da página, vai reparar que o Taiko 2 nem aparece entre os produtos oferecidos. Como disse no título do artigo, é uma pérola rara totalmente escondida!!!

Clicando-se no link store de sua página, em vez de seguir para a loja virtual, você é direcionado para um formulário onde eles avisam que a loja já fechou, mas, se você estiver mesmo interessado em algum produto, você pode enviar seu e-mail para que eles prosigam na transação. Você receberá então uma mensagem com todos os produtos disponíveis. No Gmail a mensagem vem só pela metade e você tem a opção de carregar ela inteira em seguida. Só então aparece, quase no fim da lista, o Taiko 2!!!

Originalmente o produto custava U$129.99 (mais barato que os U$199 dos concorrentes Solo Taiko e Epic Taiko Ensemble, ambos da 8dio.com), porém, com a promoção “saindo do negócio” da Nine Volt Audio, o Taiko 2 saiu por U$69.99…

O produto é muito versátil, e pode ser usado para outros milhares de fins do que simplesmente fazer um arranjo para um grupo de taiko, como era o meu caso, e, por essa pechincha acabou valendo muito a pena!

Contato Alexl: alexltriz@gmail.com

 

04/09/2014 – “Gosto não se discute…”

 

Há várias teorias, dentro da musicologia, que procuram explicar como e porque coompreendemos e gostamos de música. Uma das que eu acho mais plausíveis é a que acredita que nosso relacionamento com a música é fruto de uma construção cumulativa de experiências musicais e sonoras. Cada coisa que a gente ouve desde nascido, ou mesmo desde a fase intra-uterina, fica associada com a situação em que essa experiência ocorreu e a sensação que sentimos diante desta experiência sonora, e isso serve de referência para outras experiências posteriores com material musical/sonoro semelhante. Segundo essa linha de pensamento, alguém acostumado a ouvir thrash Metal desde o quentinho da barriga da mãe, teria uma predisposição a gostar desse estilo ou de outras coisas que tivessem uma identidade sonora que se assemelha-se ao pulso rápido e ao registro grave dos riffs de guitarra, por exemplo. Mas isso é apenas um exemplo “macroscópio”. A teoria diz que desenvolvemos esta experiência frente a cada mínimo evento sonoro, cada intervalo musical, cada timbre diferente.

O fato é que acredito que nosso gosto musical é uma construção afetiva e, por isso, não pode ser julgado por questões simplesmente racionais mutio embora nós tentamos… O sujeito diz que ama Hardcore por causa da energia da música, mas odeia Ivete Sangalo. Gosta de hip Hop por causa das letras de protesto, mas não entende metade do que falam e também não gosta de Geraldo Vandré (ícone da MPB de protesto da década de 60).

Quando crianças, estamos muito mais livres de preconceitos e abertos a novas experiências e, por isso podemos nos tornar bastante ecléticos em relação à musica, entre outras coisas. Com a chegada da adolescência, a fase mais coletiva da construção de identidade do ser-humano, criamos vários filtros para o que podemos ou não gostar, o que é uma absurda e grandissíssima bobagem, como várias outras coisas que fazemos nesta fase da idade…

Quando eu era pequeno, adorava as músicas do Sidnei Magal. Talvez intuísse alguma coisa cômica em sua performance exagerada, mas o fato é que me sentia bem e feliz ouvindo aquelas letras intensas e dramáticas como “Se te pego com outro, te mato, te mando algumas flores e depois escapo…” ou “Ah, eu te amo! O meu sangue ferve por você!”. Mas na época da adolescência eu não podia gostar disso por era brega… Aí ele passou a ser ridículo porque mudava de estilo e de personagem a cada novo disco. Eu dizia: “Ah, primeiro o cara descobriu que era cigano, agora virou o rei da lambada só porque isso está na moda, que vendido!”. Que grande bobo que eu era, isso sim!

Não quero, com essa crônica, dizer que temos de ouvir e gostar de tudo quanto é coisa, mas precisamos entender que o tão incensado “bom-gosto-musical” é uma grande falácia, uma construção meramente social. Tudo o que consideramos uma grande porcaria musical é apenas a constatação de que alguma música ou estilo musical não nos disperta memórias afetivas agradáveis ou interessantes, mas que pode fazer isso em outra pessoa. Do mesmo modo, não existe tal coisa como “MPB-de-qualidade” (já viu algum artista dizendo que seu estilo é MPB-sem-qualidade”?). Se apenas o grau de educação formal de um indivíduo fosse responsável por seu gosto musical, pessoas com doutorado só ouviriam Schöemberg…

*desenvolvedor da música dodecafônica

A coompreensão destas questões nos permite ser mais abertos a outras culturas e a outras pessoas na medida em que não discriminamos aqueles que tem um gosto musical diferente do nosso. Continuando o título desta coluna, gosto não se discute… se compartilha. O máximo que podemos e devemos fazer é mostrar as coisas que a gente gosta para que outros tenham a oportunidade de conhecer e sentir se desenvolvem ou não alguma empatia com o material musical apresentado. Mas, por favor, isso não significa botar o seu CD do Zeca Pagodinha no último volume do som de seu carro para que todos tenham a “oportunidade” de ouví-lo. Eu disse que não existe “bom gosto musical” mas não disse que não existe bom senso…

Eu sei que é difícil quando você se orgulha do seu filho de 5 anos gostar de Led Zeppelin e Beatles e de repente ele chega em casa cantando “Prepara que agora é hora do show das poderosas…” , mas, fazer o quê? Precisamos respeitar o gosto uns dos outros…

E quanto a nosso próprio gosto musical, também é difícil entender, mas podemos fazer essas perguntas:

– que características específicas da música (sonoridades, letra, timbres, estrutura etc) fizeram você gostar / não gostar dela?

– por que essas características lhe agradaram / desagradaram? (com que sensações, sentimentos, imagens, fatos ou idéias você as associa?)

Por outro lado, precisamos mesmo entender nosso gosto musical? Porque eu consigo ouvir um funk proibidão inteiro mas tenho calafrios e não consigo ouvir 30 segundos de Kenny G? Porque eu não gosto muito de jazz por conta dos temas simples e 95% de improviso mas gosto de música clássica indiana que tem essa mesma característica? A resposta é simples: Porque sim!*

*essa coluna não teve apoio ou patrocínio de qualquer marca de cerveja.

Contato Alexl: alexltriz@gmail.com 

 

21/08/2014 – “Como escolher um violão (ou guitarra, baixo, bandolim, etc…)”!

 

O que diferencia a produção de um bom instrumento da de um ruim é basicamente a qualidade do material usado, a perícia do luthier que o constrói e o cuidado (tempo…) que ele dispensa na tarefa.

Violões artesanais costumam ser bem melhores do que os produzidos em série, já que a escolha do material é mais criteriosa e a preocupação com os detalhes é maior (a reputação e, conseqüentemente, a carreira do luthier estão em questão…). Porém, estes podem custar até dez vezes mais do que instrumentos produzidos em fábrica.

Como a madeira não é produzida em série (ainda não vi instrumentos feitos de MDF…), de dois violões fabricados pelo mesmo luthier com o mesmo tipo de material, um pode ser melhor do que o outro.

Quanto mais porosa for a madeira, mais ela sofrerá com a mudança de umidade relativa do ar. Por isso, um instrumento construído no clima de Brasília, onde os lábios das pessoas racham devido ao clima seco, iria inchar até parecer grávido em Manaus ou no Rio de Janeiro, onde a umidade chega a… {deixem-me ver como foi o dia de ontem…) 93%! Isso é quase como morar dentro de um aquário!!! Sendo assim, um instrumento construído em sua cidade tem uma chance a mais de ser melhor do que outro feito com a mesma qualidade e cuidado, mas em clima totalmente diferente.

Estes parágrafos servem apenas para explicar um pouco a diferença de preços existente entre dois instrumentos distintos, mas não servem de muita ajuda na hora de escolher um bom instrumento.

Se você é um concertista, por exemplo, ou acha razoável gastar em média uns U$3,000.00 para ter um bom instrumento em casa, isso pode justificar o investimento num violão de um luthier. Neste caso, faça uma pesquisa em sua cidade ou com músicos que fizeram esse tipo de investimento e procure conhecer alguns instrumentos feitos por esse indivíduo. Se for o caso, entre em contato com o luthier e encomende um instrumento dele. Certamente ele se esmerará em entregar um instrumento digno e, se houver algum ajuste extra a ser feito, isso deverá ser realizado sem custo adicional. Para aqueles que ainda estão nesta categoria de investidor (…) segue o caminho das pedras para ajudar na compra de um bom instrumento.

Essas dicas abaixo mencionam o violão mas podem ser usadas também para cavaquinhos, violas caipiras, bandolins, charangos, buzuquis e o diabo a cuatro*.

*cuatro é um instrumento venezuelano de quatro cordas. Diabo é o Diabo mesmo…

1º – Pré-seleção:

Procure uma loja que tenha várias opções de instrumentos. Melhor ainda se for numa rua com várias lojas do ramo. Dê uma olhada nos instrumentos expostos:

1 – veja se o preço e as condições de compra do instrumento cabem em até 10% acima de seu orçamento. Se você acabar escolhendo algo com essa margem acima de suas posses, ainda sim poderá achar um preço melhor num concorrente ou num usado, tentar negociar um desconto, juntar um pouco mais de grana, pedir um empréstimo a um parente ou amigo ou ainda conseguir um extra vendendo seu corpo em anúncios especializados. Pensando bem, acho melhor deixar esta última opção de fora… 😉

2 – tente perceber o cuidado com o acabamento e os materiais usados. Não se deve escolher um instrumento só por sua beleza, mas o mais lógico é que ninguém gastaria muito no acabamento para deixar uma porcaria bonitinha para os olhos…

3 – experimente as tarrachas, veja se são de boa qualidade (se giram em ambas direções sem muito esforço e se parecem resistentes).

4 – sente-se e segure o instrumento na posição de tocar. Veja se você se sente confortável com a largura e espessura do braço, o tamanho da corpo do instrumento, o peso do mesmo etc…

Tome nota dos instrumentos que passaram por seu crivo e repita o teste em outras lojas. Se você quiser, nesta etapa pode apenas procurar por outros modelos que você não tenha visto em outro lugar.

Lembre-se: nesta etapa, escolha um instrumento que fique confortável na sua mão. Às vezes o comprador opta pelo instrumento mais barato da loja pensando “se o fulaninho (leia-se: “meu filho”) desisitr de tocar, não vou ter investido muito dinheiro. Acontece que um violão muito ruim pode ser exatamente o responsável pela desistênca de muitas pessoas. O sujeito esforça-se para conseguir algum resultado com seu instrumento. Mas seus dedos dóem, ele inicia um processo de tendinite e acaba desistindo achando que não leva muito jeito pra coisa.

2º – Procure por instrumentos usados (opcional):

Faça uma pesquisa em sites e jornais especializados em venda de usados e procure pelos modelos que você selecionou na loja. Selecione apenas aqueles em que você possa experimentar o instrumento pessoalmente.

3ª – Seleção:

Pesquise o preco dos instrumentos pré-selecionados por você e vá até a loja que tiver o melhor preço/condição de pagamento e variadade de modelos pré-selecionados.

Peça ao vendedor para experimentar dois modelos dos que você achar melhores. Chamemos eles aqui de modelos A e B.

Repita com mais calma os testes que você realizou na pré-seleção, veja qual dos dois lhe parece melhor e depois peça ao vendedor para trazer mais 2 instrumentos do mesmo modelo (se você ficar na dúvida entre o A e o B, pode pedir ao vendedor para trazer mais um de cada modelo em vez de mais 2 de um deles…) e um afinador eletrônico cromático*. Afine todos os instrumentos que você vai testar.

*note que alguns modelos com saída para amplificador possuem um afinador embutido, mas normalmente não são cromáticos, ou seja, não indicam todas as notas e sim apenas as da afinação normal do violão.

4º – Testes:

Ação das cordas: em Português coloquial isso significa a altura das cordas em relação à escala. quanto mais alta a ação, mais dura as cordas aparentam ser. Além disso dificultar a execução, ainda pode acarretar uma desafinação das notas nas casas mais próximas do bojo do instrumento. Um instrumento com ação alta pode disfarçar vários defeitos, por isso não caia em papo de um vendedor se ele te disser que isso pode ser resolvido diminuindo/lixando a pestana e/ou o rastilho (parte de osso ou plástico branco nas extremidades das cordas). Isso pode ser verdade, mas pode revelar este outros problemas do instrumento e aí já vai ser tarde demais, eles que façam isso na loja antes de expor o instrumento!

Empenamento do braço: se ação das cordas estiver razoável nas primeiras casas (perto das tarrachas) e muito alta perto do tampo, pode ser uma indicação de que se trata do famoso violão Robin Hood: é péssimo pra tocar mas pode dar um bom arco…

Além desse tipo de empenamento (o “arco e flecha”), há um em que o braço fica meio torcido. Esse é mais difícil de se perceber de vista (eu mesmo nunca tenho certeza só de olhar…), mas pode ser detectado no teste do afinador mais adiante.

Altura dos trastes (pode ser feito simultaneamente com o próximo teste): toque todas as cordas soltas e em seguida digitadas em todas as casas, ou no mínimo até a 12ª (isso é igual a 78 notas, tenha paciência mas não deixe de fazer isso…). Veja se alguma nota qualquer fica zumbindo (“bzzzziiiing…”) ou soa abafada como se alguma coisa impedisse a corda de vibrar. Isto se chama trastejar. e, se isso acontecer, pode descartar o instrumento logo e passar para outro.

Repare que, se você tocar muito forte, esse zumbido vai acontecer um pouco no ataque mas vai sumir logo depois. Isso acontece essencialmente nas cordas mais graves (em bons violões com cordas de alta tensão isso praticamente não acontece e ainda assim as cordas não parecem duras demais). Portanto, use o bom senso: se você sentar a mão com toda a força em todas as cordas, dificilmente vai achar um instrumento que não trasteje um pouco. Mas se você tocar fraquinho e ouvir aquela abelhinha infeliz cantando junto com o instrumento, aí não tem jeito mesmo…

Afinação geral (pode ser feito simultaneamente com o teste anterior): confira de novo, com o afinador cromático, a afinação das cordas soltas. Agora vá tocando cada uma das notas de toda a escala e em todas as cordas e veja se elas continuam afinadas. Dependendo de quão exigente você for (e quanto dinheiro e tempo você tiver para gastar) você pode ser mais ou menos rígido. O certo é que todas as notas continuem precisamente afinadas, mas uma pequeníssima variação pra cima ou pra baixo pode ser tolerada.

Por último, encoste um dedo de leve bem em cima do 12º traste da 6ª corda, nos modelos mais tradicionais ele fica no encontro do braço com o corpo do instrumento (fig.1). Dedilhe a corda ou toque-a com uma palheta. Depois digite a corda na 12ª casa (ou seja, logo antes deste traste) e toque de novo (fig.2). Compare a afinação das duas notas que deverão ser a mesma. Repita o procedimento em todas as outras cordas. O correto é que a altura (afinação) de ambas seja a mesma, mas uma mínima variação (perceptível mais no afinador eletrônico do que no ouvido…) pode ser tolerada.

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              Fig.1                                                              Fig.2

Enfim, o menos importante…

Teste de fotogenia: veja se o instrumento é bonito e fica bem nas fotos. Se não ficar, experimente mudar o modelo atrás do violão… 😉

 

Mais informações acesse:

Beginner Guitar HQ! https://beginnerguitarhq.com/best-guitar/

Até a próxima!

Contato Alexl: alexltriz@gmail.com

 
 

07/08/2014 – “Um nome grande para um grande álbum…”

 
Lalo Schifrin

O nome verdadeiro deste álbum é “The dissection and reconstruction of music from the past as performed by the inmates of Lalo Schifrin´s demented ensemble as a tribute to the memory of the Marquis de Sade” , mas, compreensivelmente, as pessoas costumam se referir a ele como “o disco do Marquês de Sade” ou simplesmente “Marquês de Sade”.

Este álbum é incrível! Talvez um dos meus 10 álbuns preferidos de todos os tempos! O compositor e pianista argentino Lalo Schifrin conseguiu capturar a essência da música barroca e renascentista e amalgamá-la com o jazz, o blues e a bossa-nova entre outros. Muito mais do que simplesmente tocar alguma peça de Bach com uma levada de jazz, ele compôs peças originais que conseguem integrar características aparentemente tão díspares quanto as das músicas de vários séculos de separação.

Old Laces e The Wig que abrem o álbum já dão todo o clima do que vem a seguir. A primeira começa com uma levada de jazz guiando uma flauta super comportada e sóbria que assim segue até a parte do improviso, onde se alterna com uma guitarra num clima bem bluesy. A segunda faixa, bem animada, uma peça típica para big bands americanas, é a mais famosa do disco. Foi, inclusive, usada por vários anos no comercial de uma certa loja de vidros e molduras. Música de Schifrin para um comercial “chinfrin”… Perdão pelo trocadilho infame, mas a faixa é muito boa, talvez a minha preferida.

A 3ª faixa, The Blues For Johann Sebastian começa com uma introdução de baixo acústico seguido por um tema levemente melancólico no piano. Ela segue nesse clima introspectivo por quase todo sua duração, salvo num momento lá pela metade onde aquele sonzão de big band dá uma sacodida no arranjo.

Outra que vale a pena destacar é Renaissance, que começa com um violão clássico numa típica peça renascentista para alaúde e corta para uma levada super suingada para um quarteto de jazz (piano, baixo, guitarra, bateria). Sempre no início de cada repetição, um pequeno interlúdio de 4 compassos lembra o porquê do título da faixa.

A próxima é Beneath A Weeping Willow Shade, única faixa com letra do álbum. A voz naïf e quase kitch da soprano se alterna e contrasta com uma flautasuper-bluesy que nos remete direto ao som de Ian Anderson, líder da banda Jethro Tull. O instrumento ruge tal como um Louie Armstrong nervoso e parece caçoar da cantora. Ah, tem também solos de cravo e guitarra antes do retorno para a última estrofe da canção.

Em seguida vem a super leve Versailles Promenade toda conduzida (temas e improvisos) pelo cravo do compositor.

Em Troubadour a música se inicia com uma levada bem interessante de bateria. Em seguida a flauta apresenta o tema sobre um baixo acúsitco lááááá no fundo. Aos poucos entram os metais e a música vai crescendo, crescendo até não saber mais para onde ir. Então ela começa de novo na flauta e vai sumindo em fade levando o tema embora…

A despeito da personalidade e vida do personagem que a inspira, a faixa Marquis de Sade, é tão leve quanto a 6ª faixa, mas desta vez o cravo deixa a parte dos improvisos para o sax alto.

Aria deste álbum dá uma quebrada no clima descomprometido e leve do álbum, misturando um vocalise tão melancólico quanto o das Bachianas nº 5 de Villa-Lobos qual aquela flauta de “voz rasgada” que já apresentei antes.

O disco termina com uma igualmente introspectiva bossa-nova instrumental de nome Bossa Antique.

Este disco é super inteligente e bem feito sob aspectos musicais. Mas para qualquer leigo, seu alto astral e suingue são marcantes. Pena que seja tão curto (tem pouco mais do que 30 min). Enfim, ele é tão bom que não consigo acreditar que levou tanto tempo para ser lançado em CD. E isso só aconteceu graças aos japoneses. Eu o tinha em vinil e fiquei anos procurando-o nesta mídia mais moderna.

Contato Alexl: alexltriz@gmail.com

 
 

24/07/2014 – “Finale 2014 – Arrumando a casa…”

 

Há mais de 25 anos no mercado, o software de edição de partituras Finale tem se mantido como líder neste segmento apesar do desenvolvimento e estratégia avassaladora de seu principal concorrente, Sibelius, que se assossiou à Avid para ser comercializado integrado ao Pro-Tools.

A versão 2014 do software, lançada mais de 2 anos depois de sua antecessora (2012) apresenta poucos recursos realmente novos, mas aparentemente a empresa passou os últimos anos revendo linhas de código de modo a preparar o programa para ser mais competitivo no futuro. Isso se reflete mais na performance do software do que na do músico que o utilisa. Mas, claro, algumas ferramentas também foram aperfeiçoadas para facilitar a vida de quem vive escrevendo música. Entre os novos recursos que vieram para facilitar a vida dos copistas estão:

agora, o programa reconhece automaticamente acidentes colocados em outros layers;

 Obs.: Clique nas imagens para ampliar!

imagem 1

imagem 2

a fusão automática de pausas de mesmo valor acontecendo simultaneamente em layers diferentes;

imagem 3

sinais de crescendo, decrescendo e trinados, entre outros, se alinham automaticamente às notas ou aos tempos do compasso, tornando sua execução mais precisa e a partitura mais limpa.

imagem 4

Corrigindo uma decisão equivocada de algumas versões anteriores, o Finale 2014 retornou com uma coluna que indicava o nº MIDI das notas (MIDI Note) no painel Percussion Layout Designer. A remoção desta coluna havia tornado a criação destes Layouts uma verdadeira maratona de paciência…

imagem 5

Além da melhoria nessas ferramentas, esta nova versão finalmente corrige uma deficiência histórica do programa: pela 1ª vez o Finale pode salvar um arquivo de modo a saber aberto por versões anteriores. Bem, no caso, uma versão anterior, a 2012. Porém, este novo formato (.musx) permitirá , no futuro, que os arquivos sejam salvos e lidos por qualquer versão, mais nova ou antiga a partir da 2012.

Como de costume, novos instrumentos foram acrescentados à biblioteca de samples Garritan, que acompanha e acaba sendo um dos grandes trunfos do programa.

– Flauta em G e flauta baixo
– Fife (uma espécie de pífano)
– Oboé D’Amore
– Clarineta em Eb
– Clarineta Contrabaixo (um 8ª abaixo do clarone)
– Octave Winds Mix (?)
– Silvery Winds (???)
– Silvery Choir (???)
– Trompete piccolo
– Eufônio solo
– Flugelhorn
– Brass Agg (???)
– Banjo
– Harpa céltica
– Orquestra de cordas col legno
– Orquestra de cordas com pizzicato Bartok
– Ethereal Orchestra 1 (???)
– Supernatural Orchestra (???)

A Makemusic (empresa responsável pelo programa) acabou com a fartura de designs e estilos de interface. Agora só há uma opção, bastante discreta, limpa e sóbria, mas que pode desagradar àqueles que preferem os estilos, em minha opinião bem carnavalescos, oferecidos até a versão 2012.

Os usuários de Macintosh precisam ficar atentos: a partir desta versão, o programa só roda nos sistemas operacionais 10.7 (“Lion”) para cima. Isso me obrigou a atualizar minha máquina, a ficar mais “moderninho”, mas também tive de abrir mão de alguns programinhas que até hoje não foram atualizados para estas versões de sistema operacional. Adeus, Solitaire ‘Till Dawn, vou sentir a sua falta… snif…

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10/07/2014 – “Foi um rio que passou em minha vida…”

 

Ultimamente os serviços que oferecem música por streaming1 estão se tornando cada vez mais populares. Alguns, como o Spotify e o Deezer, oferecem inclusive a possibilidade de download2 de suas listas de músicas para acesso offline (não conectado à Internet). Embora esse tipo de serviço tenha surgido como uma salvação para os lucros das gravadoras e um paraíso para os consumidores que podem ter acesso a “30 milhões de músicas com som de alta qualidade (…) ilimitadamente”, o negócio, nos moldes em que funciona atualmente, aponta para um total disastre para a classe artística e a produção criativa da indústria cultural. Não é à toa que artistas como Radiohead, Bob Dylan, Metallica, Pink Floyd, AC/DC, Led Zeppelin e David Byrne têm se posicionado contra esses serviços.

O que acontece é que esses serviços pagam valores absurdamente irrisórios pelo streaming de uma faixa. Eles se baseiam na premissa de que, com milhões de consumidores pagando migalhas pelo streaming, conseguiria-se acumular um valor razoável para se distribuir, mas parece que esses valores não conseguiriam sustentar nem a produção do conteúdo oferecido quanto mais um artista. David Lowery, vocalista das bandas Crackers e Camper van Beethoven chegou a escrever uma canção cujo título já diz tudo: “My Song Got Played on Pandora 1 Million Times and All I Got Was $16.89, Less Than What I Make from a Single T-shirt Sale!*”

*”minha canção foi tocada na (rádio online) Pandora um milhão de vezes e tudo o que consegui foi U$16.89, menos do que eu ganharia com a venda de um única camiseta”.

Segundo cálculos apresentados pelo site www.thecynicalmusician.com, para um artista solo ganhar o equivalente a U$1,160.00 (R$2.740,50) ele deveria ter uma música sua ouvida por streaming pelo menos quatro milhões, cinqüenta e três mil e cento e dez vezes por mês! Isso a cada mês! Para cada um dos integrantes de uma banda de 4 indivíduos receber isso, deveriam consegui emplacar dezesseis milhões duzentos e doze mil e quatrocentos e quarenta de downloads por mês, isso sem levar em conta que, se os ouvintes preferirem, podem fazer o download das músicas que quiserem logo na primeira audição e parar de ouvir a música em modo streaming.

O público em geral desconhece o custo da produção de um CD. Um conhecido meu chegou a estimar que, para gravar um álbum com uma hora de música, uma banda gastaria… duas horas!

Cerca de 15 anos atrás, o orçamento para a produção de um disco de uma banda como o Barão Vermelho era de R$60.000,00. E isto não incluia a prensagem do CD, apenas as 200 horas de estúdio (para gravação e mixagem), a masterização e produção da parte gráfica. Eu consegui lançar meu 1º álbum gastando 1/3 disso, mas toquei metade dos instrumentos, gravei num dos estúdios mais baratos da cidade e mixei entre o natal e o carnaval para conseguir uma super promoção de um estúdio com um pouco mais de recursos.

Hoje em dia, com o barateamento da tecnologia, talvez consigamos produzir um álbum até com menos dinheiro, gravando parte do material em estúdios caseiros e reduzindo o material gráfico a um envelopinho de papelão, mas o custo de produção ainda é alto e, com o advento do mp3 e agora dos serviços de streaming, o retorno é quase nulo. Atualmente quase ninguém ganha dinheiro com venda de CD. Ele serve apenas como um cartão de visita.

Um artista consagrado em uma época onde ainda conseguia algum retorno na venda de música, talvez consiga sobreviver fazendo shows e gerando milhões de streamings e downloads de seu trabalho, mas o mesmo não se pode garantir a um artista iniciante. Alguns acreditam que esse tipo de serviço possa ser um bom meio de divulgação de seu trabalho, ou uma plataforma para a descoberta de novos artistas, mas onde fica o ponto de transição entre “ouça e conheça meu trabalho de graça” e “pague X para ouvir mais de minha música”? Além disso, quantos (além de mim…) procurariam a versão paga de uma música, em streaming, download ou CD se já tivessem acesso à ela gratuitamente?

Não existe ainda no horizonte uma solução clara para este dilema, mas, certamente, do jeito que está esse horizonte se mostra bastante negro. Se alguma novidade mais ética e justa não surgir num futuro próximo, a tendência é que tenhamos acesso gratuito a toda a cultura que foi produzida no passado mas não consigamos criar algo novo por uma simples falta de condições, ou então a produção cultural passará para a esfera do hobby, sujeita a quanto o artista, obrigatoriamente amador, terá de tempo livre e dinheiro para gastar em seu lazer criativo. Mas ou menos o que acontece com a poesia: quantas pessoas no mundo você acha que sobrevivem da venda de livros deste gênero?

Nota: parte das informações deste artigo foram obtidas de um texto bastante interessante de David Byrne (ex-líder do Talking Heads) entitulado “A Internet vai sugar todo o conteúdo criativo do mundo” e acessível pelo link abaixo:

http://www.theguardian.com/music/2013/oct/11/david-byrne-internet-content-world

1- tipo de acesso a arquivos de áudio e vídeo onde o conteúdo vai sendo transmitido na medida em que as pessoas vão assistindo/ouvindo e, geralmente, não ficam armazenadas posteriormente na memória do equipamento receptor. Análoga a uma transmissão para um aparelho de tv ou rádio.

2 – tipo de acesso a arquivos onde o conteúdo total deve ser carregado e armazenado no equipamento para em seguida ser assistido/ouvido.

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26/06/2014 – “Um assunto muito GRAVE”

 

Na época em que estudava na Escola de Música Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, eu estava fazendo paralelamente o curso de violão nas antigas Faculdades Integradas Estácio de Sá (hoje Universidade Estácio de Sá). Não querendo criar conflito estudando com dois professores de violão diferentes, resolvi me meter nas aulas de percussão (sinfônica), que é uma família de instrumentos enorme e que sempre me encantou.

Lembro que na época achei muito estranho que, para começar a tocar tímpanos, o aluno precisaria ter proeficiência em caixa e outros tambores (compreensível), passar um ano ou mais estudando teclados (marimba, xilofone, vibrafone etc) para só então dar os primeiros passos no estudo destes tambores sinfônicos. Afinal de contas, pensava eu, os teclados são muito mais difíceis de se tocar. Freqüentemente eram usadas duas baquetas em cada mão, os alvos (as teclas) eram bem menores do que qualquer pele de tambor e muito mais numerosos! Minha curiosidade aumentou quando soube que, no naipe de percussão de uma orquestra, a responsabilidade pelos tímpanos cabe sempre ao spalla (o líder) do grupo.

Levou muitos anos até eu descobrir a razão do prestígio e responsabilidade que esse instrumento carrega. Acontece que o tímpano, diferente de outros membranofones (nome chic para a família dos tambores…) é afinado e geralmente toca as notas mais graves da orquestra. Além disso o instrumentista pode mudar a afinação do mesmo durante a execução de uma peça dependendo da notas que serão tocadas em seguida. E, apesar dos avançados dispositivos mecânicos do instrumento e do auxílio casual de afinadores eletrônicos, o músico ainda confere a afinação do instrumento de ouvido… enquanto a orquestra continua tocando! Pode-se ter o naipe de cordas da Sinfônica de Berlim tocando lindamente e tão afinado quanto um moderno teclado eletrônico: se o tímpano entrar um triz abaixo do diapasão toda a afinação da orquestra vai abaixo!

Isso acontece porque nossos ouvidos tendem a tomar a nota grave como fundamental. Para um conjunto soar afinado, tudo que for mais agudo, tem de reforçar os harmônicos superiores desta nota mais grave (se você quiser uma dissonância é só fugir disso).

Essa regra começou finalmente a fazer sentido durante a gravação de meu CD há mais de dez anos. Como minha situação financeira na época (não que isso tenha mudado…) só permitia o aluguel de um pequeno estúdio e neste não havia espaço para um quarteto de cordas completo (2 violinos, viola e cello), tive de gravar o tal quarteto com apenas um cellista e um violinista, em dias separados e com este último tendo de fazer 3 vozes do arranjo. E foi um violinista que me deu a singela mas importante dica que passo agora para vocês: em relação à sonoridade, é sempre melhor gravar um naipe tocando junto do que um instrumento de cada vez. Pode-se até fazer overdubs do grupo todo para encorpar ainda mais a sonoridade. Porém, se isso não for viável, como no meu caso, procure sempre gravar o(s) instrumento(s) mais grave(s) em primeiro lugar. É muito mais fácil para os instrumentos agudos se afinarem com as notas graves do que instrumentos mais graves fazerem o inverso. Isso obviamente serve para vozes, sopros etc.

Lembrei de outra situação que me ocorreu quando estava ensaiando para o show de lançamento deste mesmo CD. Num dos ensaios, o baixista não pode levar seu instrumento de fé, e achou que daria conta do recado com um baixo fretless que ele tinha à mão mas que pouco usava. Conclusão: o ensaio foi totalmente perdido porque, embora parecesse que ele estava tocando direitinho, a gente não conseguia afinar os vocais (e eram quatro cantando…) e a guitarra e o violão pareciam sempre estar desafinados. Lembre bem disto não hora de chamar um baixista qualquer para a banda só porque o sujeito não toca guitarra direito. Ele pode até tocar só uma nota por compasso, mas pode acabar com toda a sonoridade do grupo se não fizer isso direito…

timpano

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12/06/2014 – “Everybody Loves a Happy Ending”

 

Como havia dito na última coluna, eu e o editor deste blog resolvemos alternar os tópicos que abordamos aqui de modo que, todo mês, teríamos um de interesse do público em geral e outro mais voltado para músicos e técnicos.

A cada dois meses farei aqui a resenha de um álbum. Como o período entre uma resenha e outra é longo, não perderei tempo com trabalhos que considero apenas bons nem com outros que, embora excelentes, tenham despertado o interesse da “grande mídia” e, conseqüentemente, de inúmeros colunistas. Vou procurar, portanto, resenhar álbuns que possam escapar da atenção do grande público ou clássicos que parecem ter caído num limbo distante das nova gerações de ouvintes.

O escolhido dessa vez é “Everybody Loves a Happy Ending”, álbum lançado em 2004 pelo Tears For Fears.

Conheci o grupo em seu comecinho, com Change” que ouvia na saudosa Rádio Fluminense. Depois veio o mega sucesso do 2º álbum, a confirmação do sucesso com o 3º e… a dupla se dissolveu.

O trabalho do Tears For Fears continuou sob a batuta solo de Roland Orzabal. Todos os álbuns do grupo, duo ou solo, foram lançados no Brasil. E então, depois de 14 anos separados, em 2004 a dupla fundadora faz as pazes e lança um novo álbum. E aqui é que realmente começa minha resenha.

Everybody Loves a Happy Ending” é, de longe, o melhor trabalho do grupo: melodias cativantes e vocais luxuriantes em canções marcantes. É como se fosse um “The Seeds of Love” melhorado.

O último álbum da dupla antes da dissolução havia emplacado 3 sucessos, mas, no resto, era um pouco morno. Em “Everybody Loves a Happy Ending” é difícil achar uma música mais fraca. Se alguma coisa pode ser falada contra, é o fato deles terem exacerbado ainda mais a influência dos Beatles neste álbum, mas isso também pode ser considerado um elogio…

A faixa título, que abre o CD, até parece uma homenagem explícita a “A Day in the Life” dos rapazes de Liverpool. Após uma introdução arrastada com vocais oníricos, um despertador acorda o ouvinte para uma outra realidade mais urgente e acelerada: “Acorde!” – canta Roland Orzabal – “Seu tempo está quase no fim!*”. Mas isto é apenas o início de uma viagem que alterna diversos climas e seções, quase sempre de modo inesperado, durante os 4 minutos e pouco da canção.

*“Wake up! Your time is nearly over!”

Em “Closest Thing To Heaven”, uma balada levada no piano com uma “cama” de teclados luxuriantes no fundo, é quase impossível não cantar a melodia simples que o contrabaixo faz no refrão ou acompanhar as palmas que marcam a música em quase toda a sua totalidade. É isso ou então balançar os braços para o alto ao pulso da música. Definitivamente, é uma canção para arrastar multidões num show…

Apesar do andamento rápido, “Call Me Mellow” começa um pouco mais leve por conta da falta de graves no início do arranjo. Mas então a bateria e o baixo entram não deixando dúvidas de que se trata de outra canção para se cantar em voz alta, principalmente depois da convenção da bateria e o “lick” de guitarra que puxam o refrão.

Depois de três “hits” instantâneos, o álbum faz uma quebra em “Size Of Sorrow”. A faixa se inicia com o que parece o bumbo e caixa de uma velha bateria eletrônica abafada e difusa. Com uma frase cheia de pausas e sincopada, ela parece defasada da voz e dos arpejos de guitarra que entram um

pouco depois. A maioria dos ouvintes só conseguirá perceber o real andamento da música após a chegada do refrão, quando finalmente o resto da banda ataca revelando uma balada lenta, mas bem marcada.

Who Killed Tangerine? é outra que revela homenagens aos Fab Four no decorrer do arranjo. Em primeiro lugar, uma franca citação à “Come Together” na melodia da bateria (sim, melodia: não seria justo chamar aquilo apenas de levada…). Depois, na passagem para o refrão, uma massa (cluster) orquestral que remete à já citada “A Day in the Life” e introduz mais uma daquelas partes onde acompanhar com palmas é quase irresistível.

Os riffs em forma de arpejos na guitarra, a levada firme na bateria e os efeitos de distorção nas guitarras e nas vozes dão um toque de rock a “Quiet Ones”, fazendo esta canção parecer mais com as dos álbuns “Elemental” ou “Raul and the Kings of Spain” (da época em que Orzabal levava o nome da banda sem a parceira de Curt Smith) do que com as de “Seeds of Love”, último trabalho da dupla antes desse álbum que estamos resenhando agora.

Em “Who Are You”, guitarras invertidas, efeitos de flanger nas vozes e citações da 1ª faixa dão o toque experimental característico de “Revolver” dos Beatles. Mas não se engane: continua sendo uma canção ótima para cantar com os braços para o alto na parte mais lenta de um show…

Apesar de alguns momentos grandiloqüentes, a 8ª faixa, “The Devil”, é uma balada lenta, carregada por um arpejo minimalista do piano.

Secret World” é outra daquelas canções com refrões marcantes (embora não grudentos…) perfeitos para se cantar com os braços para o alto. O lirismo acrescentado pela pequena orquestra que preenche o arranjo (com destaque especial para o naipe de cordas) e o bonito porém simples solo de guitarra que aparece lá pelo fim da música contribuem para tornar a faixa bastante cativante. O finalzinho surpresa é apenas a cereja em cima do bolo…

Killing With Kindness” alterna estrofes bem arrastadas e de coloração levemente psicodélica como algumas baladas do Pink Floyd, com refrões bem enérgicos e vibrantes.

Depois da pausa da canção anterior, é a vez de outro grande momento do álbum: “Ladybird” começa com uma frase melódica bem simples e repetitiva, emenda numa parte B bastante lírica e cai numa estrofe totalmente desconcertante de compassos e acentos alternados. Estamos quase no fim do álbum e é difícil descobrir onde fica o clímax do mesmo…

Last Days On Earth” encerra este grande trabalho de forma simples e elegante. É como uma canção-fade-out levando o álbum embora suavemente…

Infelizmente, para a maioria do público de hoje, o Tears For Fears não passa de uma “uma banda dos anos 80” e, talvez por isso, o melhor disco da banda tenha passado longe da grande mídia. Uma pena, desta vez ficamos sem final feliz 🙁

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